Enquanto eu tomava um café, pensei: é possível ser grato a bens materiais?

Enquanto eu tomava um café, lembrava do sonho dourado que eu pretendia alcançar bem no início da vida adulta: tirar a carteira de motorista. Acredito que isso tenha muito a ver com a minha infância nos anos noventa, cujas manhãs de domingo eu dividia com meu pai seja assistindo a Fórmula 1, lavando a nossa VW Volksvagem ano 1976 verde cáqui, ou indo com ele até o supermercado para comprar algo que tinha faltado no almoço. Para mim, era mágico vê-lo dirigindo: como ele sabia em que momento frear, acelerar? Como aquela coisa pesada subia morros? E como não perdia o controle nas descidas? Aquela Variant com volante de caminhão era, para mim, mais legal que a nave da Xuxa, e tudo o que eu queria era ter a minha para fazer aquelas "mágicas" que nem o meu pai. 

Mas o sonho demorou consideravelmente para ser realizado... Consegui tirar a carteira, depois de um bom tempo juntando dinheiro (que acabou não sendo suficiente), mas o carro mesmo ainda demoraria mais 4 anos para alcançar. O primeiro, uma Celta cinza chumbo, havia sido um carro de auto-escola. E mesmo que pareça uma ironia, foi nele que eu aprendi de fato a dirigir. Meu cavaleiro de armadura brilhante (também conhecido como meu pai), repetia comigo durante as madrugadas os trajetos que eu faria durante o dia e pacientemente me treinava: aqui você põe terceira, aqui você precisa parar... 

Devidamente capacitada para enfrentar o trânsito praticamente indiano da minha cidade, era chegada a hora de me despedir do meu primeiro carrinho. Fiquei triste, chateada. Mesmo sabendo que estava subindo um degrau, foi difícil entregar na revenda as chaves daquele sonho concretizado.

O carrinho de auto-escola deu lugar a um modelo mais novo, confortável e vistoso de mesma marca e modelo. Mas a adaptação foi difícil, tanto que enquanto ele descansava em berço esplêndido (ou melhor, garagem), eu fazia a maior parte dos meus deslocamentos de ônibus ou a pé. No fundo, eu achava que não precisava, ou até mesmo não merecia aquele luxo.

Mas, nada como a necessidade para forçar uma mudança de pensamento: os horários apertaram, as sacolas se avolumaram e eu me via usando mais e mais aquele "carro duro". As efervescências aconteciam, e mais e mais eu me via começando ou terminando alguma coisa naquele banco do motorista. Quantas vezes eu fingi que o volante era um colo e me recostei nele soluçando até brotar a marca da Chevrolet na minha testa. Quantas vezes coloquei o rádio no último volume, tocando uma música bem velha do meu pendrive de temas aleatórios, para que eu me concentrasse na letra e não nos meus pensamentos sombrios. Quantas vezes contei novidades em voz alta dentro dele, como se os bancos fossem pessoas que pudessem de fato compartilhar das minhas alegrias e vitórias alcançadas.

Eu confesso que eu realmente fiquei na dúvida de quem faria quarentão primeiro: ele ou eu. Mas foi ele:



A verdade é que meu companheirinho de aventuras e eu estamos ficando cada vez mais parecidos: colecionamos alguns arranhados na lataria e para que fiquemos bonitos, é preciso "encerar mais". Talvez também demoramos um pouco mais para ligar pela manhã, mas continuamos sempre prontos a enfrentar o próximo desafio, seja ele o trânsito das seis horas da tarde ou as crises existenciais que marcam o adulto moderno.

Respondendo à pergunta do título, não sei se é correto ser grato a bens materiais, mas eu sou. Isso porque, pra mim o Celtinha de Oliveira é muito mais que um simples carro: é a materialização de um sonho de criança, onde hoje eu posso carregar o meu cavalheiro de armadura brilhante, assim como ele muitas vezes fez durante a minha infância. E são a esses momentos que eu sou profundamente grata. 




 

Comentários

  1. Que lindo texto!!! Fiquei emocionada!! 😍😍 Quanto amor nessas palavras! ♥️

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